segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rotina

A rotina rouba-nos a poesia e a suavidade musical. A pressão social nos faz esquecer da arte e daquilo que nos faz vibrar. Sempre a pressa, é a alma dos negócios, vivemos a 100 por hora, um milhão de pensamentos por segundo. A fadiga domina a alma e o corpo padece de refúgio. Desafios para que, para quem? Tudo tão ontem, tão já, tão imediato. Faltam momentos de inspiração, loucuras e devaneios. Aquele vinho esquecido no fundo do armário, esperando ser degustado com aquele amigo íntimo. A música ainda espera para ser completada com a dança. Billie Holiday continua guardada na caixinha de cd. O tempo passa, tudo passa, tudo passará. Mas de tudo fica um pouco. O que levaremos adiante depende de uma decisão. Razão ou sentimento, pelo que devemos nos guiar? Tudo é tão efêmero. E essa falta de sentido que nos percorre as veias, a boca, e faz-nos refém de nossa própria poesia, de qualquer arte que não seja rotina. O cheiro de vida faz o coração pulsar descontroladamente. Invade feito incenso as minhas certezas, me faz levantar do sofá e ir correndo ao encontro do amor que me espera. Graças ao amor consigo ser livre para seguir minhas vontades, meu corpo arrepia de felicidade. Esse teu futuro cheio de um dia aí, cheio de espaços em branco a serem preenchidos, para teus surtos de saudade, de esperança e vontade que me encorajam para a parte do não sei. Idéias revolucionárias nos fazem alterar o enredo, de escola de samba vamos para o blues, mas nada disso importa. Nada disso faz sentido. Porque não importa o sentido, se tudo vibra.

A Tarefa

Partir sem saber para onde.
Repartir sem saber para quem
porque o coração nada sabe de linha reta.
E o mundo, assim
não mais será peso
nem apoio,
mas doce repartição.


Lindolf Bell, no livro Iconographia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Primavera

A primavera com suas cores
Traz à vida luz e o cheiro da alegria
Fazendo voar os passarinhos outrora recatados
Pelo rigoroso inverno, frio com suas árvores
Desnudas, seu vento seco e seu uivo triste.
Em mim as estações passam, porém
É sempre inverno na ausência do amor
Como um violino desafinado e baixo
Toco canções em menor que cativam a nostalgia
Que insiste em permenecer em meus pensamentos
Como uma pequena chama que lentamente
Aquece as entranhas.


(Do maravilhoso filme "O Arco", do maravilhoso diretor coreano Kim Ki-Duk.)


Chegou a primavera! Embora em Curitiba ainda seja em inverno, com temperaturas variando de 5 a 10º C, as ruas estão floridas e coloridas e muito mais lindas. E o seu coração, como está? Primavera, Verão, Outono, Inverno ou Primavera?

Ah, eu adoro Kim Ki-Duk!

Créditos a minha amiga Thaísa (http://terceirocliche.wordpress.com/) , que me apresentou a este incrível diretor, com o delicioso Time.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Sugestões para atravessar agosto

Por Caio Fernando Abreu

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:

* publicado em 06/08/1995 no jornal O Estado de São Paulo

terça-feira, 28 de julho de 2009

O pior naufrágio.

Ao ler Amyr Klink* me deparei com a seguinte frase: "O pior naufrágio é nunca partir."
Essa simples afirmação me faz parar por vários minutos, e iniciou em minha memória um curta-metragem dos momentos mais importantes da minha vida, de idas e vindas, encontros e desencontros. Descobri nessa sutil frase o verdadeiro sentido de muitas coisas; tudo nessa vida é breve e efêmero como um vento de ontem. Tudo um tempo determinado de ser - e não se trata de data de validade, como produtos, mas sim de existência. E algum momento é chegada a hora da partida. Muitas vezes insistimos em uma situação, por teimosia, medo, insegurança, ou qualquer outro sentimento que nos impede de prosseguir. E não deixamos partir. Seja um fato, um momento, um sentimento, uma pessoa. Às vezes um relacionamento, ou um parente enfermo, um amigo. Seguramos em nós aquela pessoa ou sensação para não perder o porto seguro, talvez por medo do desconhecido ou dos efeitos da partida. Pensamos e depois? Fato é que aquilo que realmente nos pertence jamais se vai definitivamente. Verdadeiros sentimentos como amor e amizade são atemporais e não precisam de demonstrações periódicas para afirmar sua existência e essência. Não precisamos prender aquilo que está vinculado a nós pela essência, mas o fazemos, movidos por sentimentos primitivos. E há oportunidades únicas que jamais se repetirão, se não aproveitadas. O medo do desconhecido muitas vezes nos impede de viver diversas histórias que nos fariam pessoas melhores, mais maduras. Medo, imaturidade e insegurança nos fazem estagnar. E é justamente esse não-temor que me impulsiva, que lateja em mim todos os dias. Há em mim uma urgência de viver, de descobrir, de ser. Meu coração tem o constante desejo de ser desobedecido, não faz perguntas e muitas vezes não tem cautela. "Apenas parte", me diz. Não me dá opções, não me deixa ser prudente. Não me deixa ponderar sobre os tantos, quantos e porquês. Apenas quer viver, partir sempre, absorver o que há de melhor no mundo. Tenho urgência de viver histórias de maneira completa, com início, meio e fim, sugar o melhor de tudo e todos ao meu redor. Amo, desejo, quero, não quero, desprezo, enfim, meus sentimentos são completos. Ninguém passa pela minha vida sem que eu perceba sua presença ou passagem. Alguns eu puxo para o lado, outros carrego e alguns ficam para trás; mas nunca passam despercebidos. Tenho medo de errar, mas não deixo o que quero. Gosto de aprender e de ensinar o que sei. Já me enganei e perdi inúmeras vezes, já chorei pelo que não devia, porém foi com tudo não planejado que cresci. No auge dos meus vinte e poucos anos posso dizer que já parti inúmeras vezes. Algumas vezes ficou apenas o suspiro de saudade e o cheiro de jasmim. E mesmo que o coração às vezes doa, não adianta. Eu nasci para partir. Sempre.
*Linha Dágua - Entre estaleiros e homens do mar
*
A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois que acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo.
Mário de Andrade - Amar, verbo intransitivo.