Chegou ali depois de muito tempo de ausência consentida. Já nem lembrava de tantas coisas. Alguns detalhes ainda eram vivos em sua mente, como a voz rouca e compassada, o tato e a barba por fazer, crescendo minuciosamente no rosto tão singular. Havia pensado em todos os detalhes, todas as expessões, gestos, do possível sorriso denunciando a velha intimidade. Tinha medo das reações dele e consequências, todas elas. Haviam dito, quando você olhar pra ele, você vai saber. Era essa a sua única dúvida e medo, o olhar. Será que ele ainda era o mesmo? Seria ele capaz de fazê-la desmoronar com um único olhar? No horário combinado, lá estavam os dois. Cumprimentaram-se, inevitável é o constrangimento; o abismo que se abre depois da intimidade é intransponível. Os olhos se fixam procurando a sintonia. Já não há mais sintonia. Há o mistério, o cuidado, o receio. O tempo paralisou e ela sentiu-se como que se desfazendo em milhares de pedacinhos. Desintegrou numa espécie de libertação. Tudo vibrou. Ele permaneceu intacto e ela reconheceu. Ele era o mesmo. Parado ali na sua frente, tão igual a sempre. Nela tudo mudou. O peso da mudança transparecia no olhar opaco, como que distante e preso em lembranças do passado. Os tempos se misturaram, passado, presente, futuro. As imagens vieram à mente, o coração pulsou e balançou. E quando tudo estava prestes a explodir, o máximo que fez foi arrumar o cabelo, levemente bagunçado, e tirar o pouquinho de suor no canto da testa. Porque gritar de nada adianta, chorar também não. Falar alto é deselegante. Melhor mesmo é baixar os olhos, pra ele não descobrir o que tem dentro da alma. Em instantes o tempo parecia ter transcendido. Cansado da ansiedade, perguntou o que a trazia ali, depois de tanto tempo. A resposta: você. Quero que você me escute, simplesmente. Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes. Todo o discurso ensaiado caiu por terra. Pela primeira vez ficou tão nua diante de alguém, com roupas. Já havia começado a suar as mãos, o coração estava a mil e havia um leve tremor. As lágrimas escorriam discreta e lentamente. Ela desnudava-se em palavras. Primeiro tirou a máscara e abriu a cortina de ferro. Você é a pessoa que eu amava. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto. Depois do êxtase, a ressaca sentimental. Desfez-se da arrogância, irrelevante agora. Não sabia com que forças chegaria até ali, mas saiu de casa calçando coragem e, vaidosa que era, colocou o melhor cabelo. Levemente bêbada de vinho, não achou que seria tão forte a presença, a ponto de um olhar fazer o tempo parar e o coração ficar sem ritmo. Cuidava pra respiração não denunciar a angústia. Disse o que ele precisava saber, que cada música que tocava era com ele que ouvia. Em cada deslumbramento sentia o seu toque. E de tão entranhado nas lembranças, ele virou parte da sua história. O que fazer com o sentimento irreversível? Agora que ela estava ali, prostrada diante da verdade, desabotou lentamente todo o pudor e retirava o medo de cada palavra. Falava manso e baixinho, que era pra brutalidade não estragar o momento. Depois dele, todos os amores pareceram tão grandes e promissores. Não demorava muito e logo acabavam por motivo nenhum que pudesse justificar o fim daquele sentimento exageradamente grande. O fantasma era constante e rondava o futuro. Seria apenas uma lembrança ou um retrato embolorado na memória? Por fim, a última peça caía, deixando-a nua. Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. Eu vim para ver. Agora vejo que você nem é tanto assim. A fantasia parecia tão maior! O amor só dura pra sempre quando não acontece, quando fica só na suposição. Ah, grande alívio que sinto ao constatar que o amor que eu sonhava era fútil! Tão criança, tão despreparada que fui. Acontece que eu descobri agora, olhando pra você, que não há amor. Ainda bem. A intenção é unicamente deixá-lo saber. Que não há coisa pior que o não saber, que o nunca mais. Apenas para ser gentil, vim avisar que estou expulsando você da minha vida, junto com todas as suas lembranças banais. Paramos aqui. Olhou-o pela última vez, virou as costas e saiu de lá sentindo-se mais mulher do que nunca.
domingo, 24 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Da amizade e outros demônios
Qual é mesmo o nome daquilo, daquele sentimento supremo? Amor, arriscarão. Não, mais que isso. Amizade. E alguém dirá, citará algum poetinha que um dia falou que poderia viver se morressem todos os seus amores mas morreria se morressem todos os seus amigos. Amigos são o retrato de nós mesmos. Diga-me com quem andas e direi quem és? Não. Melhor: diga-me com quem andas e direi se vou contigo! Ou não. Mas, de preferência, andemos com amigos com os quais seja possível embarcar na boemia por uma noite inteira, despretenciosamente, falando sobre tudo ou sobre nada. Que compartilhe das frustrações diárias, anti-heróis que somos. Excluídos da sociedade de massa, sim, e riremos disso. E falaremos também do futuro nunca alcançado, visto que fabuloso demais. Nossos braços são pequenos demais para abraçar o mundo. Então abraçaremos um ao outro. Ao final riremos novamente e tanto, e sempre. Buscaremos apenas o inteligível: segredos entrecortados por risos, o ombro amigo na hora da morte, a companhia na hora da angústia. Porque é tudo o que temos. O riso, a palavra de conforto, o abraço. O afeto, maior patrimônio. Digo, meus caros, pior que o inimigo é o ex-amigo. Este deixa um sentimento terrivelmente vazio. Deixa pra sempre aquele vácuo de aliterações, jamais preenchido novamente. Músicas pela metade, filmes sem finais felizes, lembranças que incomodam. O café, antes delicioso, agora amargo. Já não há mais riso, tampouco aquela gargalhada que deixa feio, tamanha é a felicidade clandestina. No lugar do sentimento, o nada. De repente, não mais que de repente, da cumplicidade fez-se a indignação. Silenciosa, mas mortal. Do sentimento mais puro e abnegado fez-se o rancor profundo. A mágoa enrustida na alma. Do riso fez-se a incapacidade de sorrir, e do afeto fez-se o olhar vazio. A ilusão acabou, a quimera apagou. E agora, em quem acreditaremos? Não, não há explicação. Também não há verdadeiro rancor, vingança, amor, alegria, cumplicidade. Talvez haja a saudade, jamais admitida pelos que zelam por si próprios, tamanha estupidez é o orgulho! O luto silencioso de quem perdeu o mais precioso bem estando vivo. O pior naufrágio é cometer suicídio e permanecer vivo. De tanto amor, agora azedo. A luta contra o próprio ego, contra o próprio passado! Se somos refém de nossas histórias, onde chegaremos? Ninguém sabe. O que houve? Não há explicação. Nunca haverá! O que é suficientemente forte para macular uma amizade feita na pedra? Era barro e não pedra, dirão. Dirão também: poderia ter durado para sempre. É o que eu dizia, irremediavelmente convicta de que o pra sempre sempre acaba. Disse o poeta, de tudo fica um pouco. E ficou um pouco do teu riso, teu olhar, teus gestos. Mas muito mais que o pouco ficou o completo vazio. Vazio contra o qual tento lutar que, de tão grande, tão imenso, engoliu todas as boas lembranças guardadas no íntimo da gente. O ex-amigo, meus caros, é como um falecido cujo corpo jamais será encontrado. É um defunto que permanece vivo, jamais velado. Doença que lateja constantemente em parte desconhecida. Machuca ainda mais o coração já retalhado. Eterna incógnita. É... maldita impossibilidade que parece zombar daqueles um dia amaram seus amigos mais do que puderam...
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A descoberta
Escreveu uma longa carta a si mesma, acompanhada da música e da chuva. Cada nota dos arranjos que ouvia parecia um capítulo de sua história. O tempo era breve, assim como o momento. Havia bastante metafísica em não pensar em nada. Tantos pensamentos, nenhuma conclusão. Para que desfecho? A vida não é retilínea e sim uma aventura, um passeio de barco ao som de Bill Sharlap. Escreveu uma carta como se fosse entregá-la a alguém, mas ninguém a receberia. Sorriu. Em cada parágrafo despedia-se de tudo o que viveu. Jogou ao ar o que fora ilusão, lamentou algumas perdas e riu do sofrimento. Olhou para os lados e viu-se sozinha na multidão. Haveria alguém ali capaz de entender seus complexos sentimentos? Sentiu um estranho alívio de si mesma. Suspirou pelos poemas que nunca escreveu e pelas músicas que nunca compôs, mas que lhe eram sabidos. Abriu os braços, o coração e os pensamentos. O vento tocou seu corpo e a levou para dentro dos arranjos em ré menor. Sua alma decolou. Voou para longe e para muitos lugares, no passado e no futuro. Fez da falta de porto e de certezas um passeio para voar por entre mundos. Fez da solidão seu recreio e da música seu aconchego. Precisava não dormir até se consumar o tempo de delicadeza. Então amou-se como se fosse única. Sonhou em morar em um olhar como o seu, tão só, tão só. A táctil intensidade era tanta que encheu seu coração de sua própria plenitude. Não sentia o tempo, nem presente, nem passado. E o futuro, esse sim pensava em sentir, mas era como barro mole ainda nas mãos do oleiro. Ainda ontem corria como um herói incansável na busca de não sei quê. Até que encontrou a si mesma. Uma dose de Martini, mais uns suspiros, e foi pra casa acompanhada da Lua. Nos paroxismos da sinestesia, sob gotas de chuva, descobriu o milagre da própria existência.
"Aprendi a respeitar tua prumada
E a desconfiar do teu silêncio"
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Noite das Bruxas
Segundo a tradição polonesa, no último dia de novembro acontece a “Noite das Bruxas”. Ontem esta noiteteve comemoração especial no Café Junto, antes desconhecido por mim (e de quebra virou meu novo café preferido na cidade). Lá, as donas do recinto promoveram a “Noite das Bruxas” em grande estilo, num ambiente restrito a poucas pessoas, luz de velas, alguns docinhos e salgadinhos para aguçar o paladar. Reza a lenda que o futuro de uma pessoa pode ser previsto com a junção dos seguintes elementos: líquido de vela, chave, e recipiente – bacia, vidro, ou algo do gênero - com água gelada. A pessoa deve segurar a chave com uma mão e, com a outra, derramar a parafina pelo buraco da chave. Em contato com a água, a parafina cria formas que aos poucos se definem. Segundos depois, pega-se essa forma e segura-se contra a luz, projetando uma sombra na parede. A imagem formada pelo jogo de luzes revela o seu futuro, interpretado pela bruxa polonesa.
Inebriada pela magia do local e pela alegria que tomava conta dos presentes, eu a minha amiga entramos no clima e participamos do ritual. O futuro de Cecília revelou-se numa graciosa bolsa de moedas de ouro, ao melhor estilo Robin Hood. Resultado: ela vai ser muito rica e bem-sucedida! O que, para mim, não é novidade alguma, haja vista sua admirável inteligência e incrível capacidade de lidar com todos os tipos de pessoas. Depois de alguns instantes, a minha vez.
Inebriada pela magia do local e pela alegria que tomava conta dos presentes, eu a minha amiga entramos no clima e participamos do ritual. O futuro de Cecília revelou-se numa graciosa bolsa de moedas de ouro, ao melhor estilo Robin Hood. Resultado: ela vai ser muito rica e bem-sucedida! O que, para mim, não é novidade alguma, haja vista sua admirável inteligência e incrível capacidade de lidar com todos os tipos de pessoas. Depois de alguns instantes, a minha vez.
Inicialmente, o desenho formado pela parafina parecia indefinida e sem nexo no grande recipiente de vidro. Minutos depois, veio a imagem. Frágil, mas definida. Projetada na parede estava lá a previsão para o meu futuro, fruto de uma porção de parafina: o mapa mundi. Disse a polonesa pra mim, com empolgação: “Você vai viajar muito! O mundo todo!”
Uma inesperada alegria tomou conta de mim. Viajar muito - e pelo mundo todo - é o meu maior anseio. Tenho sonhos e planos para um futuro próximo, que precisam de disciplina e organização para se concretizar. E paciência, muita paciência. Meu roteiro para 2010 ainda é indefinido, mas uma coisa é certa: não quero conquistar tudo sozinha. Sou muito feliz por ter alguém com quem eu posso fazer planos e almejar uma carreira bem-sucedida. E assim deve ser por muito tempo.
De acordo com a tradição, deve-se dormir com a forma da parafina ao lado da cama na Noite das Bruxas, para que a previsão se realize. Bruxaria ou não, magia ou não, estou feliz pelo futuro que me espera. Assim como o Cartola, sempre acreditei que o mundo é um moinho, prestes a triturar todos os sonhos mesquinhos. Por isso sonho grande. Sou do tamanho dos meus sonhos, e não do tamanho da minha altura.
"E tudo o que eu criar pra mim / Vai me abraçar de novo na semana que vem"
Inevitavelmente feliz,
A Anjinha de Candura.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Vazio
Estou só no vazio de mim mesma
Todas as cores parecem de um mesmo tom
E todas as músicas de uma mesma melodia a esmo
Sinto o cheiro do vazio agrupado e bom.
Estou só e você não vem! E não virá nem verá
É como se a pedra dilatada exalasse a constelação de muito tempo
Não sei se tenho tempo pra me sentir só em meio a tanta gente.
Há tanto vento! Não sei se é ilusão ou espécie de vício.
Só sei que seu sorriso é sombra bruta e me desloca no ar do precipício.
Sei que às vezes poderá não me compreender, mas também sei que és só.
Assim como eu, procura em outrem o que já não encontra em ti.
Sou vela acesa que consome o ar e é consumida enquanto fabrica luz e sombras.
O tempo vai me levar!
Todas as cores parecem de um mesmo tom
E todas as músicas de uma mesma melodia a esmo
Sinto o cheiro do vazio agrupado e bom.
Estou só e você não vem! E não virá nem verá
É como se a pedra dilatada exalasse a constelação de muito tempo
Não sei se tenho tempo pra me sentir só em meio a tanta gente.
Há tanto vento! Não sei se é ilusão ou espécie de vício.
Só sei que seu sorriso é sombra bruta e me desloca no ar do precipício.
Sei que às vezes poderá não me compreender, mas também sei que és só.
Assim como eu, procura em outrem o que já não encontra em ti.
Sou vela acesa que consome o ar e é consumida enquanto fabrica luz e sombras.
O tempo vai me levar!
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